THEATRE :


August 11, 2002/Jornal do Commercio



Rio terá Festival Fernando Arrabal
Ciclo de leituras e peças em setembro comemora os 70 anos do dramaturgo espanhol


Bianca Tinoco

Odiado por uns, aclamado por muitos outros, o controverso dramaturgo, escritor e diretor de cinema Fernando Arrabal já conta os minutos para vir passear na Praia de Copacabana. O intelectual espanhol, mundialmente conhecido pelo espírito provocador e pelo impacto desconcertante de suas peças, completa 70 anos neste domingo. Ele é o convidado de honra do Festival Fernando Arrabal, um ciclo de leituras dramatizadas, peças e filmes, em setembro. Arrabal aguarda apenas um aceno de possíveis patrocinadores para reservar sua passagem, vindo aproveitar a homenagem prestada pelo amigo e diretor teatral Gustavo Paso. Dedicado à obra do dramaturgo há dois anos, Paso abrirá o festival no próximo dia 5 com a estréia de 'Cemitério de Automóveis' - uma das peças mais famosas de Arrabal, em uma versão nunca antes apresentada no Brasil.

- Arrabal criou o texto original em 1950, publicou-o em 1952, mas depois o reescreveu em uma linguagem mais barroca, em 1959. 'Cemitério de Automóveis' foi encenada por Vitor Garcia nos anos 70, mas seguindo o primeiro roteiro, único vertido para o português até então - conta Paso, confiante de que a montagem de sua companhia, a Epigenia Arte Contemporânea, fará jus à aura polêmica de Arrabal.

- A peça traça um paralelo com a vida de Jesus Cristo, mas incorporei elementos de todas as divindades no personagem central, que agora lembra Krishna. Acredito que a obra de Arrabal abre muitas possibilidades para que o diretor trabalhe conceitos, não siga à risca o que o texto pede. Quero fazer arte e ele oferece subsídios para isso - afirma o diretor.

O festival será sediado em dois palcos do Rio - um deles, já confirmado, é o do Teatro do Jóquei, na Gávea - e pretende oferecer um panorama profundo da trajetória de Arrabal, com nove leituras dramatizadas seguidas de debate. Gustavo Paso coordena a interpretação dos atores envolvidos há três meses, revendo obras como 'Piquenique no Front' e 'Guernica', e ainda encontra tempo para ensaiar, ele próprio, outro texto do espanhol. Em 7 de setembro, Paso e sua esposa, a atriz Luciana Fávero, entram em cena com a temporada carioca de 'Oração'.

- Junto com 'Cemitério de Automóveis', 'Oração' integra minha trilogia sobre Arrabal, que terminará em 2003 com 'O Arquiteto e o Imperador da Assíria' - conta Gustavo Paso, tentando explicar seu fascínio pelo dramaturgo. - O mundo dos personagens dele é ingênuo, são crianças vivendo situações de adulto. É desse confronto que vem toda a crueldade e o humor das peças de Arrabal, sempre em um tom onírico, longe da atmosfera cotidiana.

Prestigiado do Japão a Israel, da Austrália aos Estados Unidos, Arrabal é pouco mais que uma leve lembrança para o público de teatro carioca, apesar de influenciar muitos dos diretores. De acordo com Gustavo Paso, a última adaptação do espanhol em cartaz no Rio foi 'Torre de Babel', espetáculo dirigido por Gabriel Vilela e protagonizado por Marieta Severo em 1995.

Obra de vanguarda


- O meio artístico brasileiro deixou a obra de Arrabal de lado, as platéias estão perdendo a oportunidade de valorizá-lo enquanto ele está vivo - indigna-se Paso. - Não renego os autores brasileiros, muitos deles são brilhantes, mas é preciso observar o teatro contemporâneo além das nossas fronteiras. É imprescindível que o público carioca se surpreenda com a atualidade de Arrabal, uma obra de vanguarda até hoje em dia.

Paso percebeu o quanto o Rio estava carente de informações sobre Fernando Arrabal ao pesquisar a vida do dramaturgo na biblioteca de Artes Cênicas da UNI-Rio, no ano passado. O diretor ficou perplexo ao constatar que havia somente um livro do espanhol nas prateleiras da universidade. A descoberta foi o empurrão que faltava para que Paso elaborasse novas publicações da obra do mestre. A primeira já está a caminho.

- Esperava lançar a edição revista de 'Cemitério dos Automóveis' ainda durante as comemorações em setembro, mas faltou verba. É uma pena, pois Arrabal nos deu uma introdução inédita e um desenho para a capa do livro - conta Paso, que não desistiu do projeto. - Estamos com tudo praticamente pronto, apenas captando recursos.

Sete décadas de imaginação

Em fevereiro passado, durante um congresso na Espanha, Fernando Arrabal deu a pista para decifrar sua carreira em um comentário sobre o autor Pirandello, que afirmava ser visitado todas as noites por uma dama vestida de preto, a fantasia. "A mulher que me visita à noite veste-se de todas as cores e não se chama fantasia, mas imaginação. Pois a imaginação é nada mais, nada menos que a arte de misturar nossas recordações". Foi relacionando memórias, impressões e desejos que o dramaturgo e romancista espanhol construiu uma obra única, equilibrando-se no limite do absurdo.

Aos 10 anos, Arrabal teve sua última referência do pai, condenado à morte pelo regime franquista e visto pela última vez no meio da neve, fugindo de um hospital psiquiátrico. A dura experiência serviu de inspiração, mais tarde, para um dos filmes mais autobiográficos de Arrabal, 'Viva La Muerte' - um dos selecionados para o Festival Fernando Arrabal, no Rio.

Aos 20 anos, Arrabal se auto-exilou em Paris. Desde então, foi responsável por 12 romances, incontáveis livros de poesia, sete longas-metragens e mais de duas mil páginas em roteiros para teatro. Fundou também o Movimento Pânico em 1963, confirmando sua opção pelo absurdo. Hoje, é também artista plástico e um amante do xadrez - tema sobre o qual também já se aventurou em livros.